Depois de muitas tentativas, finalmente fui conhecer o Epice, restaurante que está na minha lista há muito tempo, mas nunca consegui ir. Tentei algumas vezes no almoço, mas sempre acabava chegando depois das 2:30pm, horário que encerra a cozinha, diferente da média que vai até as 3pm.

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Liguei para uma amiga que na sua opinião o Epice é o melhor restaurante de São Paulo, além de ter muito carinho por Alberto Landgraf. Fiz o convite e ela topou na hora.
Recentemente o Epice e as delícias de Alberto receberam uma estrela do Guia Michellin como vocês já viram aqui. Ou seja, tem que ficar ligado nos horários e no site dos caras para fazer reserva. No dia, minha amiga Luzinha entrou e reservou na hora. Tudo bem que estávamos falando de uma terça-feira, 7:30pm, beleza?

Alberto sem sombra de dúvida é um cara que brilha fazendo sua cozinha autoral. Ele estuda, ele pensa, ele desenha, … tudo com muito carinho e imaginando o “curso da história” que seu menu degustação vai oferecer não só em sabor, mas em experiências para os que vão ao Epice provar suas iguarias.

Para constar no radar do roteiro gastronomico, vale saber que Alberto e seu Epice se juntaram com o Leo e Bruno Ventre do Beato e estão se divertindo. O Epice mantém a cozinha autoral de Alberto como sempre foi enquanto o Beato, que antes era restaurante e hoje tem mais pegada de bar e speakeasy com drinks muito bem executados pelo Kennedy Nascimento (@jkennedynascimento). Mas não ache que a comida deixa a desejar. Já conheço o Beato, mas ontem fui lá comer algumas delícias. Semana que vem estará aqui no VICCO na série Conhecendo.

Voltando ao Epice: cheguei lá por volta das 8pm e só havia uma mesa no salão. Confesso que imaginava um lugar totalmente diferente, com uma pegada mais “cosi”, com luz intimista e ambiente mais aconchegante. Recentemente o espaço passou por uma reforma, mas acho que pecou nos sofás pretos e as luzes de led branco, além de 3 aparelhos de ar condicionado em lugares estranhos e muito a vista. Gostei dos bancos do bar e das novas cadeiras, além das mesas em madeira mais clara.

Na chegada fomos recebidos por alguns dos simpáticos e preparados meninos da brigada de Landgraf e logo chegou Jah Nu, o comandante do salão por lá e que sabe tudo o que rola na cozinha e principalmente nos pratos. Converse com ele, bata um papo. Para se ter ideia, o papo foi tão bom ao longo do jantar entre um prato e outro e chegamos a conclusão redundante que manteiga é vida, é amor, mesmo tendo poucos pratos que levam manteiga.
Alberto desceu da cozinha para nos receber e eu disse: “estou aqui para receber ordens e só dizer sim”. Alberto muito calmo e educado como sempre é me perguntou se tinha alguma restrição. Disse que não e lá fomos nós:

drinks
Tomamos dois drinks, um a base de limão siciliano e outro em um pote que tinha base de gengibre e cachaça. Achei esse pote sensacional, pois até o fim do jantar havia bebida e o melhor, estava gelada. Imagina um gim tônica ali… boa ideia não?
Drinks muito bons, leves e cítricos. Tudo pensando por Alberto para harmonizar com suas delícias que estavam prestes a descer.
Confesso que não sou grande fã de harmonização como vocês viram a minha experiência do Momofuko Ko do David Chang em NYC, lembram?
Mas aqui a coisa foi diferente e cada uma das bebidas acertou no ponto e no sabor de cada prato!

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couvert
Não sou fã da palavra, mas vamos lá. Os pães feitos lá são tão gostosinhos que parece que saíram da padaria naquele momento. Há também uma leve lembrança de infância, sabe? Ainda mais na minha infância que a maioria dos pães no nordeste têm essa pegada e lá são chamados de pão de seda.
Os detalhes do sal e do azeite também são muito bem apresentados e ficam com você na mesa durante todo o jantar.

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rabanete / castanha de cajú crua
Quase como um prato de boas vindas. O rabanete cru, sobre pasta de castanha e farofa de cogumelos já é de explodir o sabor. Fresco e ao mesmo tempo intenso devido a farofa de cogumelos, é um bom exemplo para o que virá na sequência.

pele de garoupa / creme azedo
Mais um que lembrou infância. Extremamente suave por se falar de uma pele de peixe e o que ganha é pó verde de algas marinhas. Além disso, o creme azedo é muito fresco e leve. Um espetáculo e dá vontade de comer em um balde, sabe?
Pena que só vem uma pra cada. rss

tapioca / gordura de boi maturada
A tapioca chega a mesa como se não houvesse nada, mas a surpresa é grande após a primeira mordida.
Já com a tapioca na boca, parece que Alberto te leva para dentro de uma churrascaria, ao lado do fogo aonde está sendo assada a costela de boi. É simplesmente sensacional e de comer de olhos fechados.

coração de pato / cenoura acidulada
Confesso que esse foi o único prato que não faço questão de comer novamente. A mistura de texturas e sabores é peculiar e vocês vão entender o por que. Quando o prato chegou e fomos informados do que era, fui numa boa comer, afinal gosto bastante de carne, além de miúdos, fígado, muela, etc. Ou seja, achei que seria tranquilo, mas a sensação é uma mistura da textura de uma fraldinha com o sabor de coração de galinha com um final mais forte. Gosto dos dois, mas a mistura foi uma surpresa estranha.
A cenoura obviamente foi raspada do prato e comida de colher.

picles de melão / pimenta schzwan
Luzinha já havia avisado que o melão de lá era puro amor. Houve uma alteração da pimenta, mas mesmo assim, incrível.
O melão vem para limpar o paladar para entrar na segunda parte do menu aonde a coisa só melhora.
Albreto é quem faz seus próprios picles, legal né? Não tão doce, a pimenta ganha vida e confesso que na mistura com o vinho que nos foi servido junto a degustação, fiquei com algumas partes dormentes na boca. Viva as experiências gastronômicas!


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cebola / ricota / pele de frango
Extremamente suave, azedo e doce. Diferente, não? A cebola dá o doce, a ricota um leve azedo e a pele do frango salga. Muito gostoso também, suave e extremamente delicado. Também um dos pratos para comer de colher e de balde.

pupunha / pêra fermantada / mel de jataí
Prato leve e muito suave. Abaixo das fatias de pupunha está literalmente uma gota de pasta de alho negro. Essa mistura é ótima, e muito leve. Essas folhinhas que vocês vêm na foto eu não lembro o nome, mas tem sabor adocicado e segundo Jah Nu, lembra casca de melancia. Não cheguei a esse ponto para sentir, mas o prato é um dos mais delicados em questões de ingredientes e sabor em todo o menu.

sardinha curada / foie gras / brioche
Espetáculo. A sardinha curada com vinagre por Alberto, o foie e o brioche feito em casa é de chorar. Curioso que somos, eu e Luzinha abrimos para “estudar” o que tinha entre as camadas de sardinha, foie e o pão. Lá estava a mesma farinha de cogumelos que veio no rabanete, lembra?
Sensacional e de comer de olhos fechados. A sardinha é muito suave e não tem aquele gosto de mar que espanta muita gente, sabe?

cenoura assada / tucupí / azedinha
Leve e o tucupi reina. A cenoura é desidratada por Alberto até ficar com o mínimo de suco possível. Eu fui comendo uma a uma, mas ao final cheguei a conclusão que é bom pegar a faca e cortar ela em cubinhos e comer de colher junto com o caldo do tucupí e a azedinha.

lula / emulsão de manteiga / banha de porco
Mais um de comer e fechar os olhos. A lula vem em pequenos pedaços cortados de forma irregular e com alguns cortes para facilitar a mastigação e claro, para a emulsão de manteiga pegar mais ao fruto do mar.
Espetáculo! Leve, suave, sabor de manteiga e cozida no ponto certo. Quer mais?
Foi aí que chegamos a conclusão redundante com Jah Nu que manteiga definitivamente é vida!

pele de porco / repolho / caldo de copa lombo
Até agora não consegui esquecer esse prato de tão especial que ele é.
A pele de porco vem em tirinhas finas misturada ao repolho e depois banhada com o caldo.
Me lembrou um pouco pratos da cozinha japonesa pela sua apresentação.
Não cometa o erro de deixar o caldo no prato… aquilo é vida! Peça uma colher ou tome direto no prato, que foi como eu fiz.

cordeiro / abóbora / rapadura
A parte em questão aqui é o pescoço, então tem um sabor mais peculiar.
A carne vem no ponto certo e extremamente macia e com gordura marmorizada. A abóbora é bem suave e tem pouco papel no prato. Já a rapadura dá uma pegada boa na mistura do salgado com o doce, e suaviza o sabor do cordeiro.

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sorvete de castanha crua
A melhor sobremesa que comi nos últimos tempos. Não teria forma melhor de finalizar o menu com um prato desses. A delicadeza no sabor, com a castanha ralada em cima, pouco doce e vai até sal na receita feita na famosa máquina suíça Pacojet.
Mais um para comer de balde!

emulsão de mandioca / limão / garapa
Para escrever sobre a garapa tive que dar um google e para um bom nordestino, isso não passa do bom e velho caldo de cana.
Quando chega a mesa, parece um mar de texturas, mas quando você come, a tal da garapa de dissolve como gelo e o limão ganha mais vida junto emulsão da mandioca.
Um prato sem muita informação e ótimo para acabar um menu espetacular e cheio de experiências sensoriais!

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Pois é, o Epice é um restaurante que vai te deixar com um sorriso no rosto a cada minuto, seja com a chegada de pratos novos, seja com os sabores, seja com o carinho que Alberto coloca em cada uma de suas criações ou seja pela simpatia da brigada do exército de Landgraf. Meus parabéns! Realmente uma surpresa ótima e pratos que ficarão na memória por muito tempo.

Queria agradecer o carinho de meu querido Leo Ventre e ao Alberto, além do Jah Nu, que fizeram da experiência por lá, fazer querer voltar e sair falando pelos quatro cantos o quanto é especial o menu do Epice. Independente de estrela Michelin, Alberto reina!

 

Serviço:
Rua Haddock 1002 – Jardins
Tel: 3062 0866
epicerestaurante.com.br